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ESPECIAL BRUMADINHO: LUTO, CICATRIZES E INJUSTIÇAS MARCAM OS 2 ANOS DO CRIME AMBIENTAL QUE CUSTOU 270 VIDAS

Foto: Arquivo / Agência Brasil.

Lucas Guimarães
Especial para o Notícias Gerais

Nesta segunda (25) completam dois anos do rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho (MG), cidade metropolitana de Belo Horizonte. No dia 25 de janeiro de 2019, por volta de uma hora da tarde, a barragem da mina do Córrego do Feijão, na zona rural, rompeu e 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram liberados em um mar de lama que levou terror à cidade e região. Um relatório da comissão independente de investigação contratada pela mineradora apontou que a Vale tinha conhecimento da fragilidade da barragem desde 2003.

Brumadinho tinha uma população de cerca de 40 mil habitantes à época, e a mineradora, há décadas, é a maior empregadora da cidade. O desastre tirou a vida de 270 pessoas – até hoje 11 corpos não foram localizados. Dois anos depois, as coisas não caminharam como se esperava após uma tragédia de tamanha magnitude. Batalhas judiciais, efeitos ecológicos, negligência, protestos, homenagens, luta e luto marcaram a história das milhares de pessoas atingidas por essa página incurável na história de Brumadinho. 

Para entender o ocorrido é preciso observar as falhas que já davam sinais. A mina do Córrego do Feijão usava o método de alteamento a montante, o mesmo da barragem do Fundão, que rompeu em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015, causando a morte de 19 pessoas. Esse método obsoleto tem um custo menor para as mineradoras, e um risco considerável de acidentes. O alteamento a montante consiste na utilização dos próprios resíduos da extração de minério como base de contenção da barragem, e foi amplamente usado na construção das barragens nas últimas décadas.

Depois da tragédia de Brumadinho, a Vale foi à público declarar que iria desativar e esvaziar todas as barragens que usavam alteamento a montante. Uma resolução de fevereiro de 2019 da Agência Nacional de Mineração (ANM), no Diário Oficial da União, determinou que todas as mineradoras tinham até janeiro de 2021 para o descomissionamento das barragens do método em questão. Contudo, o prazo foi ampliado para fevereiro de 2022, e, segundo pronunciamento do governo de Minas Gerais em 17 de dezembro de 2020, apenas uma barragem já foi devidamente desativada e esvaziada no estado de MG, restando agora 52. A única descomissionada foi a B2 Água Preta em Conselheiro Lafaiete, da CSN Mineração.

Há pouco mais de um mês, um dia depois do pronunciamento do governo de MG, outro trabalhador foi vítima da mineração da Vale em Brumadinho. Júlio César de Oliveira Cordeiro tinha 34 anos, e era funcionário terceirizado da mineradora. O mesmo operava uma retroescavadeira em 18 de dezembro de 2020, quando um talude de terra e minério desabou na mina do Córrego do Feijão, o soterrando.

Marcas profundas

O rompimento da barragem do Córrego do Feijão dois anos atrás ainda deixou marcas profundas a longo prazo para a vida em Brumadinho. A reportagem do Notícias Gerais conversou com Tiago Shizen, pós-doutor em Ecologia Humana e em Ecologia, e pesquisador colaborador do Centro de Referência em Recuperação de Áreas Degradadas do Baixo São Francisco. Segundo ele, houve danos para todas as formas de vida. “Alguns efeitos foram imediatos, como a morte de pessoas, animais e plantas soterrados pela lama, e alguns vêm acontecendo ao longo do tempo” – coloca Shizen. 

O ecólogo explica que as substâncias que foram liberadas com o rompimento da barragem são encontradas em pequenas quantidades na natureza. Os micro-organismos aquáticos e terrestres atingidos pela lama não conseguem sobreviver com a demasiada quantidade destas substâncias. Com isso as plantas não sobrevivem, pois precisam de micro-organismos e de um solo em boas condições. Quanto aos animais aquáticos, estes necessitam da qualidade da água para sobreviverem, e, segundo Tiago Shizen, foram os mais atingidos, já que estudos demonstram presença elevada de ferro em rios a 240 quilômetros do rompimento da barragem: “Normalmente, se os micro-organismos não sobrevivem na água, é muito provável que os animais também não consigam” – pontua o pesquisador. 

Shizen ressalta que o rompimento da barragem de quase 13 milhões de m³ de rejeitos provoca consequências em cadeia, e que podem durar vários anos. O ecólogo finaliza fazendo referência ao desastre de Mariana, quando uma barragem com 43 milhões de m³ rompeu: “Os danos foram enormes, até um rio foi morto, o rio Doce”.

 Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

Extensão da tragédia

Desde as primeiras horas do desastre de 25 de janeiro de 2019, várias ONGs atuam de diferentes formas e com diversos objetivos na cidade de Brumadinho e região atingida pela tragédia. O Instituto Guaicuy, criado em 2000, é uma organização homologada pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) para compor a assessoria técnica Independente às populações atingidas pelo rompimento das barragens da mina do Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho-MG.

Foram mapeadas cinco áreas atingidas em diferentes níveis pelo rompimento da barragem, interligadas pelo rio Paraopeba, represa Três Marias e pelo rio São Francisco. 

Como o mapa apresenta, a área 1 consiste da cidade de Brumadinho. Na área 2 se localizam Betim, Mário Campos, Igarapé, São Joaquim de Bicas e Juatuba. A área 3 é composta por Floresta, Pará de Minas, Esmeraldas, São José da Varginha, Fortuna de Minas, Pequi, Maravilhas, Papagaios, Caetanópolis e Paraopeba. A área 4 por Pompéu e Curvelo. E, por último, a área 5 por Três Marias, Felixlândia, Abaeté, Morada Nova de Minas, Paineiras, Biquinhas e São Gonçalo do Abaeté. 

A Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (AEDAS) atua nas áreas 1  e 2, o Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (NACAB) atua na área 3, e o Instituto Guaicuy cobre as áreas 4 e 5. A população das três primeiras áreas podem contar com um auxílio pago pela Vale caso se sintam atingidos pelo rompimento da mina do Córrego do Feijão. A população das áreas 4 e 5 não tem o reconhecimento desse direito, mesmo com estudos demonstrando que os metais pesados chegaram à represa de Três Marias e ao rio São Francisco. 

A assessoria do Instituto Guaicuy explicou que as assessorias técnicas buscam garantir, de forma multidisciplinar, o direito à informação para as pessoas atingidas, e assegurar sua participação informada nos processos de reparação integral de danos causados pela mineradora Vale em janeiro de 2019: “Isso acontece por meio de criação de diálogo e escuta com as comunidades e pessoas afetadas, garantindo fazer frente ao poder da Vale, que muitas vezes em seus acordos individuais, não considera a dimensão dos danos causados pela lama carregada de rejeitos”.

Outro lado

A reportagem entrou em contato com a Mineradora Vale, por email, na última sexta (22), mas até o fechamento desta reportagem, nesta segunda (25), não obteve retorno. O Notícias Gerais segue aberto a ouvir o máximo possível de versões do fato.

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