Início Gerais Cotidiano FOSSA ECOLÓGICA É ALTERNATIVA PARA A POPULAÇÃO SEM SANEAMENTO BÁSICO

FOSSA ECOLÓGICA É ALTERNATIVA PARA A POPULAÇÃO SEM SANEAMENTO BÁSICO

Ilustração indica qual o resultado esperado. (Imagem: reprodução)

Ana Laura Queiroz
Notícias Gerais

Em um país como o Brasil, onde 48% da população ainda não possui coleta de esgoto ou condições mínimas de saneamento básico, alternativas econômicas e sustentáveis para o tratamento caseiro dos dejetos são essenciais.

Foi justamente pensando em um projeto que fosse acessível financeira e ecologicamente correto, que Daniel Arantes Pereira, morador do bairro Alto das Águas, em Tiradentes, decidiu construir uma fossa séptica biodigestora – a famosa fossa ecológica – no terreno de sua casa.

O valor médio para construção de uma fossa séptica comum é de R$ 6 mil: número muito acima da realidade da maioria das famílias brasileiras. Enquanto o custo de uma fossa ecológica, de acordo com o engenheiro civil Thiago Moura é mínimo.

“Com certeza é mais barato que a fossa comum, porque é bem mais simples de construir. Essa fossa pode ser feita simplesmente com uma tela de galinheiro e um reboco fino só para segurar a obra”, analisa. O engenheiro acrescenta que os materiais utilizados podem ser reutilizados de obras anteriores e do descarte de lojas e oficinas mecânicas – como, por exemplo, o pneu e o entulho, que fazem parte da estrutura; isso, segundo Thiago, além do material base para a fossa ecológica – tais como, a terra, que pode ser retirada do próprio terreno, sem custos.

A história de Daniel

Daniel, dono do terreno, é doutor em Ciência de Alimentos pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Natural de Cássia, pequena cidade no sul de Minas Gerais, despertou seu interesse pela bioconstrução ainda durante a graduação.

Em 2000, ele se mudou para Pirenópolis, no interior de Goiás, para trabalhar no Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado. A organização sem fins lucrativos tem o objetivo de promover a viabilidade de uma cultura sustentável, criar experiências educativas e disseminar modelos de desenvolvimento ecológicos no Brasil.

De volta à Minas Gerais, desta vez para a cidade de Tiradentes, Daniel decidiu aplicar o que aprendeu em Pirenópolis. Defensor da permacultura e da bioconstrução, ele acredita na necessidade de fechar o ciclo da natureza: por meio do cuidado com a terra e o tratamento da água.

Por adquirir um terreno em um bairro onde ainda não há tratamento de esgoto, ele optou pela construção da fossa séptica biodigestora de bananeiras.

Processo de construção

De acordo com Thiago Moura, engenheiro civil responsável pela obra, os processos são simples. Ele enfatiza que, apesar da baixa complexidade, é necessário que a atenção esteja sempre voltada para evitar que o esgoto contamine o solo.

Os processos podem ser resumidos em: abertura do espaço da fossa, construção da parede de separação, inserção de uma trilha de pneus ao centro, inserção dos entulhos ao redor dos pneus. Então acrescenta-se uma camada de brita, logo após uma camada de areia. Por fim, fecha-se a fossa com mais uma camada de terra do próprio terreno e, ali, plantam-se árvores de raízes profundas como a bananeira, taioba, graviola, dentre outras.

Dessa forma o esgoto do vaso sanitário passa por um tratamento biológico: a biodigestão anaeróbia. Este tipo de tratamento é um processo natural em que, na ausência do ar, microrganismos utilizam a matéria orgânica biodegradável para obter energia e matéria-prima para reprodução. Tem como produtos principais o gás carbônico e o gás metano, bem como matéria orgânica sólida ou solúvel estabilizada. O processo reduz sólidos, microrganismos patogênicos e trata o esgoto.

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do ponto de vista ambiental, trata-se de uma ótima solução, pois reduz o uso de fertilizantes químicos comerciais, protege o meio ambiente (rios, lagos, lençol freático e solo) e, principalmente, promove a saúde das pessoas que habitam a áreas sem saneamento básico.

A construção pode durar em média três dias, dependendo das adversidades do tempo e da quantidade de pessoas envolvidas. Para Daniel, é possível contratar a mão de obra, ou realizar mutirões com amigos e vizinhos que também acreditam na bioconstrução.

Direito negado

No Brasil, o saneamento básico é um direito assegurado pela Constituição Federal e é definido por lei como um conjunto dos serviços, infraestrutura e instalações operacionais de abastecimento de água, esgotamento sanitário e outros serviços como manejos de resíduos sólidos e de águas pluviais.

Entretanto, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), mais de 100 milhões de brasileiros não têm acesso ao tratamento de esgoto. Além disso, dados alarmantes do Instituto Trata Brasil, apontam que o equivalente a 5.650 piscinas olímpicas de esgoto são despejadas na natureza diariamente.

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