Início Opinião Coluna TREM DE MINAS: UMA VISÃO FEMININA DA SÃO JOÃO DEL-REI QUE RECEBEU...

TREM DE MINAS: UMA VISÃO FEMININA DA SÃO JOÃO DEL-REI QUE RECEBEU A CORTE DE D. PEDRO II EM 1881

Foto da Ponte da cadeia, em São João del-Rei, com o Arco do Triunfo feito para comemorar a visita de D. Pedro II à cidade, em 1981
Foto da Ponte da Cadeia, em São João del-Rei, com o Arco do Triunfo feito para comemorar a visita de D. Pedro II à cidade, em 1981. Acervo não identificado.

Najla Passos *

Um povoado pacato e promissor, encravado entre as montanhas, que ostentava três suntuosas e cafonas igrejas barrocas, erguidas com o ouro das Minas Gerais. Uma cidade que carecia de infraestrutura básica, como hotéis e calçamento adequado, mas com cerca de 700 habitantes tão hospitaleiros que aceitaram o desafio de abrigar em suas próprias casas os 800 membros da comitiva do imperador D. Pedro II, que visitaria a lugarejo para inaugurar a Estrada de Ferro Minas D´Oeste, em 1881.

Esta foi a impressão que São João del-Rei despertou na educadora alemã Ina von Binzer, preceptora dos filhos da elite paulista do café, que teve a oportunidade de acompanhar a corte na histórica visita ao município. E que no livro “Os meus romanos: alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil”, lançado originalmente em alemão, em 1887, compôs o único relato de uma mulher do século 19 sobre a vida, a cultura e os hábitos da São João del-Rei da época.

Uma visão cravada dos preconceitos dos colonizadores europeus, mas profundamente irrigada da sensibilidade da alma feminina e da críitica social humanista. “No século 19, quase todos os viajantes eram homens e eram raras as mulheres que escreviam naquela época. Por isso, o livro é tão importante: constitui o único relato feminino da região feito no século 19”, explica o professor, pesquisador e escritor tiradentino, Luiz Antônio da Cruz, autor do livro Memória Ferroviária, em que ele narra essa e outras histórias sobre o trem em Minas Gerais.

“NO SÉCULO 19, QUASE TODOS OS VIAJANTES ERAM HOMENS E ERAM RARAS AS MULHERES QUE ESCREVIAM NAQUELA ÉPOCA. POR ISSO, O LIVRO É TÃO IMPORTANTE: CONSTITUI O ÚNICO RELATO FEMININO DA REGIÃO FEITO NO SÉCULO 19”

Luiz Antônio da Cruz. escritor tiradentino

A obra de Ina von Binzer foi traduzida para o português e publicada pela Editora Anhembi, em 1956. Em 1980, foi reeditada pela Editora Paz e Terra, com prefácio de ninguém menos do que o crítico literário Antônio Callado. “Este livrinho, composto de cartas, levemente romanceado, escrito por uma preceptora alemã menos erótica – pelo menos declaradamente – mas tão interessante quando a Fräulein de Mário de Andrade em “Amar, verbo intransitivo”, compara ele no texto.

Espírito aventureiro

Único registro encontrado de Ina Von Binzer, sentada no campo, segurando um bebê.

Ina von Binzer viveu no Brasil de 1881 a 1884. Culta, ousada e espirituosa, desembarcou no Rio de Janeiro aos 22 anos, ansiosa por viver aventuras. E se decepcionou, conforme narra à amiga Grete nas cartas imortalizadas pelo livro, por não sofrer ataques de indígenas ou das onças na sua viagem de até São Paulo. Na verdade, se sentiu profundamente irritada ao ser transportada em uma “carruagem europeia” até a fazenda do escravocrata que a contratou para educar seus filhos.

Na bagagem, ela trouxe a visão europeia dominante na época de total repúdio à escravidão que ainda insistia em vigorar no Brasil daquele final de século. Com o passar do tempo, porém, foi assumindo o discurso dos seus patrões de que o país não poderia prescindir dela. Mas, mesmo ao defender a permanência do trabalho escravo, o fazia com um argumentação humanística incomum para as mulheres da daqueles tempos.

Sua preocupação central era com o que seria feito dos negros, sem educação, ofício ou trabalho. A educadora era uma crítica voraz da falta de interesse das elites brasileiras em educar os negros já nascidos livres. Mas ela se preocupava também em como o país geraria riquezas sem contar com mãos e braços negros.

“Neste país, os pretos representam o papel principal; acho que no fundo são mais senhores do que escravos dos brasileiros. Todo o trabalho é realizado pelos pretos, toda a riqueza é adquirida por mãos negras, porque o brasileiro não trabalha, e, quando é pobre, prefere viver como parasita em casa dos parentes e de amigos ricos, em vez de procurar ocupação honesta. (…) gostaria de saber o que fará essa gente quando for decretada a completa emancipação dos escravos”, registrou.

TODO O TRABALHO É REALIZADO PELOS PRETOS, TODA A RIQUEZA É ADQUIRIDA POR MÃOS NEGRAS, PORQUE O BRASILEIRO NÃO TRABALHA, E, QUANDO É POBRE, PREFERE VIVER COMO PARASITA EM CASA DOS PARENTES E DE AMIGOS RICOS, EM VEZ DE PROCURAR OCUPAÇÃO HONESTA.

Ina von Binzer, educadora alemã

A corte em São João del-Rei

Litografia feita em 1881, por-Angêlo Agostini, para comemorar a inauguração da Estação Ferroviária. Mostra o trem chegando na estação, decorada com um arco do triunfo, com populares aguardando a corte desembargar.
Litografia feita em 1881, por Ângelo Agostini, que registra até mesmo o arco do triunfo feito para inauguração da Estação Ferroviária de São João del-Rei. Acervo NEOM ABPF

Ina chegou a São João del-Rei um dia antes do imperador, o que lhe garantiu um tempo para conhecer a cidade. E já na chegada, se ressentiu da calma e da falta de pontualidade do brasileiro. “Quando chegamos à cidadezinha de São João del-Rei eram onze e meia em vez de sete horas; mas não tinha importância, pois no Brasil quem se revela muito pontual não deve estar regulando bem. Todos se mostravam contentes”, registrou.

No livro, ela descreveu Minas Gerais como “um pedaço de terra primitivo encerrando mais bondade do que civilização e tão mal afamado como desconhecido”. Mas diz que achou mais interessante passear por Minas do que pelo Rio, já que pode flagrar homens pretos, mulatos e brancos procurando ouro ao longo da paisagem. Ela descreve a geografia do local, a aposta alta na fortuna do garimpo e até conta que comprou meio dedal de pepitas de ouro de um “pobre-diabo preto”, por 22 marcos, o que deveria significar muito pouco à época.

A viajante escancara a necessidade do trem de ferro alcançar a região, ao relatar os tortuosos caminhos que as cargas precisavam percorrer “em dorso de burro” para chegar até a cidade. E se espanta com o fato de que, até 20 anos aants, São João del-Rei não conhecia sequer o pão, além de que, ainda naquela época, não possuía nenhum hotel para abrigar os viajantes.

“Todos os hóspedes, que a cidade de São João del-Rei convidou para a inauguração de sua estrada de ferro, foram recebidos em casas particulares, o que me parece muito característico do Brasil, onde as desproporções estão na ordem do dia, que uma cidadezinha de mais ou menos 700 habitantes convidara cerca de 800 hóspedes, distinguindo-se o imperador Dom Pedro II, que amavelmente aceitou o convite.

ME PARECE MUITO CARACTERÍSTICO DO BRASIL, ONDE AS DESPROPORÇÕES ESTÃO NA ORDEM DO DIA, QUE UMA CIDADEZINHA DE MAIS OU MENOS 700 HABITANTES CONVIDARA CERCA DE 800 HÓSPEDES, DISTINGUINDO-SE O IMPERADOR DOM PEDRO II, QUE AMAVELMENTE ACEITOU O CONVITE.

Ina von Binzer, educadora alemã

O trem de Minas

Aspecto-da-plataforma-de-embrque-desembarque-entre-1881-e-meados-da-décda-de-1910.jpg
A foto mostra o aspecto original da Estação Ferroviária de São João, da inauguração até meados da década de 1910, quando foi ampliada.

Ina von binzer chegou a São João del-Rei pela Estrada de Ferro e ficou estarrecida ao acessar a malha mineira, em que um vagão pequeno e apertado, de apenas 1,65 metro de largura, demorou 15 minutos para se colocar em movimento. “Com assombro e admiração, víamos o nosso trenzinho correr, serpenteando habilmente em torno de uma alta montanha cuneiforme e ir aos poucos esgueirando-se morro acima com segurança, para surgir três vezes na mesma paisagem”, narra ela.

Na estação enfeitada com bandeiras de festão e animada por uma banda de música em que ela reconheceu conterrâneos nos instrumentos de sopro, ficou novamente perplexa Desta vez com a multidão que viera receber os hóspedes. E se alegrou ao conseguir um “carro” para leva-los até a casa em que ficariam hospedados, “sobre o calçamento mais perigoso que jamais ameaçou gente e veículo”.

Ao chegar ao destino, registrou as fisionomias espantadas, os apertos de mão e os “infalíveis dois beijos das senhoras”. E ressentiu-se de que no quarto em que fora alojada, com mais seis pessoas, havia um só lavatório. “Sinto horrivelmente frio, nesta mais que primitiva cama, pois várias fendas e frestas do soalho ajudam o ar fresco de um porão que fica embaixo a penetrar sem obstáculos. Não me admirei nem um pouco quando, pela manhã, vim a saber que a casinha dos nossos hospedeiros tinha abrigado 27 pessoas durante a noite!”, relatou.

A alemã registrou que a elogiada hospitalidade brasileira não pode ser comparada à europeia, onde o convite em massa e a maneira de tratar os convidados seria vista como falta de consideração ou uma certa falta de cerimônia simplória. Segundo ela, o hóspede brasileiro nada pede além de um colchão e um cobertor, prescindindo de qualquer outra comodidade. “De conforto nem se fala”, alertou.  

Um passeio pela São João de 1881

A visita à cidade ressaltou ainda mais a boa impressão sobre a cordialidade e hospitalidade do povo são-joanense. “Mesmo o mais pobre dos habitantes mostrava-se orgulhoso e amável porque se considerava um anfitrião”, afirmou Ina

Ela ficou escandalizada mesmo foi com as igrejas: “nada menos de três e bem grandes, o que para o europeu, e principalmente o protestante, causa surpresa, em compração com a precariedade das outras condições”, observou, calculando quantas milhas aquelas pedras percorreram em lombo de burro e a que custo econômico e social.

Para a europeia, era razão de crítica, por exemplo, o fato dessas “grandes construções de mármore português” não apresentarem estilo bizantino puro ou mesmo gótico. “A maioria é de mau gosto e sobrecarregada, no estilo jesuíta (sic). No interior, horrorizam-me umas terríveis reproduções da Santíssima Trindade, representadas em toda parte por imagens de madeira colorida de tamanho maior que o natural”, criticou.

“MESMO O MAIS POBRE DOS HABITANTES MOSTRAVA-SE ORGULHOSO E AMÁVEL PORQUE SE CONSIDERAVA UM ANFITRIÃO”Ina von Binzer, educadora alemã

Ina von Binzer, educadora alemã

No dia seguinte, 29 de agosto de 1881, deveria ocorrer a inauguração da ferrovia e os variados festejos previstos para a data. Mas as coisas não correriam exatamente bem. Com ironia, Ina destaca que, já bem cedo, as “beldades brasileiras” vestiram seus “mais lindos vestidos” para esperar o imperador. A maioria deles procedente de Paris, ou pelo menos do Rio de Janeiro.

“Assim, você bem faz uma ideia dessas senhoras, que durante o ano todo se vestem de chita, exibindo trajes de cor vermelho berrante, azul forte e até verde e amarelo”, divertia-se, destacando a cauda enfeitada de rendas meio rasgadas do vestido da sobrinha do seu hospedeiro, que redemoinhava no pó.

Ina caçoou também dos “arcos do triunfo” estendidos pelas ruas, feitos, segundo ela, de maneira primitiva, com bambu flexível, revestidos com gaze colorida e enrolados em fita. “Admirei-me de tanta falta de gosto e habilidade”, cravou, sobre o conjunto da obra decorativa da cidade.

A chegada do imperador e da imperatriz

A imperatriz Tereza Cristina e o imperador D. Pedro II, em montagem feitas com fotos tiradas na década da visita a São João del-Rei. Fotos: Wikpédia.

O imperador D. Pedro II, a imperatriz Tereza Cristina e sua comitiva chegaram a São João del-Rei com três horas de atraso. A máquina do trem que os transportava quebrou e obrigou o nobre casal a esperar por outra em uma estação do meio do caminho que ainda estava sendo pintada e atapetada. Ina registra que, apesar disso, o humor do imperador não fora prejudicado.

D. Pedro chegou em São João del-Rei, elegante, altivo e animado. “Arranjaram também um concerto e um baile?”, teria questionado ele ao desembarcar, dirigindo-se com amabilidade aos seus súditos. Posteriormente, já na casa em que ficaria hospedado, o imperador cumprimentaria Ina em francês, o que a deixou intrigada, visto que era do seu conhecimento de que ele falava também com fluência o alemão.

A alemã teve menos compaixão pela figura da imperatriz, descrita por ela como “uma senhora muito pequenina e um pouco disforme, vestida simplesmente de preto, sorrindo com benevolência e dando a mão a beijar”. Mais tarde, falaria dela com mais simpatia, quando reconheceu que “a pobre princesa, velha e cansada, encontra uma palavra amável para cada senhora da sociedade são-joanense, enquanto o imperador, sem o mínimo sinal de fadiga, se reúne aos senhores”.

“A POBRE PRINCESA, VELHA E CANSADA, ENCONTRA UMA PALAVRA AMÁVEL PARA CADA SENHORA DA SOCIEDADE SÃO-JOANENSE, ENQUANTO O IMPERADOR, SEM O MÍNIMO SINAL DE FADIGA, SE REÚNE AOS SENHORES”

Ina von Binzer, educadora alemã

Durante a recepção, a preceptora alemã registrou, mais uma vez, a hospitalidade e o prazer de receber do povo são-joanense. Conforme ela, a casa escolhida para receber o imperador e comitiva pertencia a uma baronesa viúva, que vivia no Rio de Janeiro. Aos seus móveis e objetos de arte, somaram-se o de toda a população da cidade. “Quem “possuía qualquer coisa bonita, tinha-a levado para lá”, contou Ina.

Mesmo assim, para os padrões da colonizadora, apenas a sala de jantar parecia confortável, com “uma mesa lindamente arranjada e decorada por um cozinheiro francês”. Ela caçoou também dos soldados, descritos como “chucros”, que executavam manobras de forma desordenada.

A inauguração que não houve

À meia-noite, quando todos já descansavam em seus aposentados, foram surpreendidos pela notícia de que o ministro da Agricultura, Buarque de Macedo, estava à beira da morte. No trem, a caminho de são João del-Rei, ele fora acometido de um mal-estar que foi progredindo. O médico que o examinou fora chamado tarde demais, conforme Ina: disse que nada restava a fazer.

No relato dela, Buarque de Macedo suspirou; “Minha pobre família”, e o imperador só teve tempo de tranquiliza-lo sobre o destino deles antes que morresse. Na madrugada, D. Pedro e sua comitiva voltaram à estação e seguiram para o Rio de Janeiro.

As solenidades previstas para o dia seguinte foram suspensas. Luiz Antônio da Cruz afirma que o cancelamento das festividades deixou a população local desolada, embora todos tenham reconhecido que o motivo era adequado. Ina von Binzer, entretanto, não viu desvantagem nenhuma nisso. Para ela, a cafonice e o desconforto que havia presenciado até então já eram suficiente para a visita ser dada por encerrada.

Agradecimentos da coluna

As imagens que integram este resgate histórico são fruto da colaboração de João Victor Militani, do Museu Regional de São João del-Rei, e de Gustavo Zenquini Teixeira, que edita a página no Facebook EFOM, sobre a memória ferroviária da região.

* Najla Passos é jornalista, mestra em Linguagens e Literatura Brasileira e diretora-executiva do Notícias Gerais

3 COMENTÁRIOS

  1. Fantástico! Nunca soube disso nem nos tempos de escola…muito interessante! Parabens pela postagem.. ..trmos muitas histórias.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui